quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Une Saison en Enfer - Primeira parte

de Jean Arthur Rimbaud
tradução de Pedro Lago


Outrora, se me lembro bem, minha vida era um banquete onde se abriam todos os corações, onde todos os vinhos corriam.
Uma noite, eu sentei a Beleza sobre meus joelhos. – E achei-a amarga. – E a injuriei.
Eu me armei contra a justiça.
Fugi. Oh bruxas, oh miséria, oh ódio, é a vós que meu tesouro foi confiado!
Cheguei a fazer desaparecer do meu espírito toda a esperança humana. Sobre toda a alegria, para estrangular, eu fiz o salto surdo da besta feroz.
Chamei os carrascos para, perecendo, morder o cabo de seus fuzis. Chamei as degraças, para me entupir com a areia e o sangue. A mágoa foi meu deus. Eu me esparramei na lama. Eu me sequei no ar do crime. E eu dei bons passeios na loucura.
E a primavera me trouxe o abominável riso do idiota.
Mas, recentemente, tendo me encontrado sobre o ponto de fazer a últiima mancada, sonhei em procurar a chave do banquete antigo, onde retomaria talvez o apetite.
A caridade é esta chave. – Esta inspiração prova que eu sonhei!
“Tu permanecerás hiena…” etc… recria-se o demônio que me coroou de amáveis papoulas. “Ganhe a morte com todos os apetites, e teu egoísmo e todas os pecados capitais.”
Ah! Estou muito ocupado:  - Mas, caro Satã, eu vos conjuro uma pupila menos irritada! E atendendo a algumas pequenas covardias atrasadas, vós que amais nos escritores a ausência de faculdades descritivas ou instrutivas, eu vos destaco algumas terríveis folhas de meu caderno de amaldiçoado.

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