de Jean Arthur Rimbaud
tradução de Pedro Lago
tradução de Pedro Lago
Outrora, se
me lembro bem, minha vida era um banquete onde se abriam todos os corações,
onde todos os vinhos corriam.
Uma noite,
eu sentei a Beleza sobre meus joelhos. – E achei-a amarga. – E a injuriei.
Eu me armei
contra a justiça.
Fugi. Oh
bruxas, oh miséria, oh ódio, é a vós que meu tesouro foi confiado!
Cheguei a
fazer desaparecer do meu espírito toda a esperança humana. Sobre toda a
alegria, para estrangular, eu fiz o salto surdo da besta feroz.
Chamei os
carrascos para, perecendo, morder o cabo de seus fuzis. Chamei as degraças,
para me entupir com a areia e o sangue. A mágoa foi meu deus. Eu me esparramei
na lama. Eu me sequei no ar do crime. E eu dei bons passeios na loucura.
E a
primavera me trouxe o abominável riso do idiota.
Mas,
recentemente, tendo me encontrado sobre o ponto de fazer a últiima mancada, sonhei em procurar a chave do banquete antigo, onde retomaria talvez o apetite.
A caridade
é esta chave. – Esta inspiração prova que eu sonhei!
“Tu
permanecerás hiena…” etc… recria-se o demônio que me coroou de amáveis
papoulas. “Ganhe a morte com todos os apetites, e teu egoísmo e todas os
pecados capitais.”
Ah! Estou
muito ocupado: - Mas, caro Satã,
eu vos conjuro uma pupila menos irritada! E atendendo a algumas pequenas
covardias atrasadas, vós que amais nos escritores a ausência de faculdades
descritivas ou instrutivas, eu vos destaco algumas terríveis folhas de meu
caderno de amaldiçoado.
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