domingo, 6 de novembro de 2011

Corpo Aberto


para Afonso Henriques Neto

Busca pela linguagem
quem sabe inalcançável,
de uma maturidade
igualmente estável
em querer dizer as coisas.

De fato, nem todos são
aquilo que são, mas
observo-os, podem ter
tido algo semelhante
à uma epifania, na
clarividência dos cantos
escuros da ideia, onde talvez,
esteja a tal fonte de tudo.

É estranho perceber.

A fruta e mais bela após considerar
uma natureza-morta,
o vento e a ave são primorosos,
se os ouço depois do cravo ou do violino.

Parece tão simples, mas
é estranho perceber.

Quebra-se a casca e surge o pó
das cores que coram as letras,
pretensa voz disputando o último discurso.

Não é para poetas que falo,
nem mesmo para mim,
por que fazê-lo?

Então, meu tio e o enfermeiro
me fitam sorrindo, se lhes digo
algo íntimo. A conversa fica
mais leve.

É o retorno silencioso.

Não são as palmas nem os elogios,
é o trivial vindo de não sei onde
que me sussurra : “Continua!”

Abro meu corpo e uso tudo que tenho.
Choro e faço doer em mim o que está fora,
e me defino admirando os outros.

Por um momento não me sinto
perdido, volto ao ventre e
deito-me para a esquerda.

É estranho perceber.

Perder-se o tempo inteiro até voltar para casa,
e não tenho mais medo.

Tudo faz sentido:

A tarde, a maçã, o teatro de bonecos,
o início da primavera.

Não quero a razão de nada.
A vida por um momento de expansão,
um filho.

Deve ser isso,
um instante eterno de imensidão.

Fosse tudo nesse segundo,
valeria mais a pena.

O trabalho dentro da sintonia lúdica
que vive, mas se afasta.
O menino, o brinquedo de madeira,
o jogo de botão, a primeira vez
que se ouviu As Bachianas,
o mingau de aveia.

É estranho perceber.

Lembranças se apagam,
e fica apenas a vontade
de pedir um abraço,
dizer coisas essenciais,
de voltar de voltar de voltar.

Mas, não. Saem escamas, a pele,
entram os olhares, a virtude
e o vazio muda.

Não sou mais o mesmo.

Vem a distinção de si ao mundo,
o corpo aberto, a alma nua,
a relação com a vaidade,
e uma rara revelação de seu próprio tamanho.

Surge o compromisso com a palavra,
o diálogo com a tradição,
a perpetuação da voz
e a constante busca pelo novo.

Porém,
é estranho perceber.


in Corpo Aberto, Ibis Libris, 2010


Pedro Lago

1 comentários:

Ivete disse...

Pedro
Tudo aqui é maravilhoso e surpreendente!
Amei teu Blog, te segui.
Caso aceite, ofereço meu singelo Selo de Aprovação.
Aguardo uma visitinha.
Obrigada
Ivete