para Afonso Henriques
Neto
Busca
pela linguagem
quem
sabe inalcançável,
de
uma maturidade
igualmente
estável
em
querer dizer as coisas.
De
fato, nem todos são
aquilo
que são, mas
observo-os,
podem ter
tido
algo semelhante
à
uma epifania, na
clarividência
dos cantos
escuros
da ideia, onde talvez,
esteja
a tal fonte de tudo.
É
estranho perceber.
A
fruta e mais bela após considerar
uma
natureza-morta,
o
vento e a ave são primorosos,
se
os ouço depois do cravo ou do violino.
Parece
tão simples, mas
é
estranho perceber.
Quebra-se
a casca e surge o pó
das
cores que coram as letras,
pretensa
voz disputando o último discurso.
Não
é para poetas que falo,
nem
mesmo para mim,
por
que fazê-lo?
Então,
meu tio e o enfermeiro
me
fitam sorrindo, se lhes digo
algo
íntimo. A conversa fica
mais
leve.
É
o retorno silencioso.
Não
são as palmas nem os elogios,
é
o trivial vindo de não sei onde
que
me sussurra : “Continua!”
Abro
meu corpo e uso tudo que tenho.
Choro
e faço doer em mim o que está fora,
e
me defino admirando os outros.
Por
um momento não me sinto
perdido,
volto ao ventre e
deito-me
para a esquerda.
É
estranho perceber.
Perder-se
o tempo inteiro até voltar para casa,
e
não tenho mais medo.
Tudo
faz sentido:
A
tarde, a maçã, o teatro de bonecos,
o
início da primavera.
Não
quero a razão de nada.
A
vida por um momento de expansão,
um
filho.
Deve
ser isso,
um
instante eterno de imensidão.
Fosse
tudo nesse segundo,
valeria
mais a pena.
O
trabalho dentro da sintonia lúdica
que
vive, mas se afasta.
O
menino, o brinquedo de madeira,
o
jogo de botão, a primeira vez
que
se ouviu As Bachianas,
o
mingau de aveia.
É
estranho perceber.
Lembranças
se apagam,
e
fica apenas a vontade
de
pedir um abraço,
dizer
coisas essenciais,
de
voltar de voltar de voltar.
Mas,
não. Saem escamas, a pele,
entram
os olhares, a virtude
e
o vazio muda.
Não
sou mais o mesmo.
Vem
a distinção de si ao mundo,
o
corpo aberto, a alma nua,
a
relação com a vaidade,
e
uma rara revelação de seu próprio tamanho.
Surge
o compromisso com a palavra,
o
diálogo com a tradição,
a
perpetuação da voz
e
a constante busca pelo novo.
Porém,
é
estranho perceber.
in Corpo Aberto, Ibis Libris, 2010
1 comentários:
Pedro
Tudo aqui é maravilhoso e surpreendente!
Amei teu Blog, te segui.
Caso aceite, ofereço meu singelo Selo de Aprovação.
Aguardo uma visitinha.
Obrigada
Ivete
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