terça-feira, 25 de outubro de 2011

Le bateau ivre

de Jean Arthur Rimbaud
tradução: Pedro Lago


Como eu descia os Rios Impassíveis,
Não me senti mais guiado pelos sirgadores.
Os Peles-Vermelhas berrantes os tinham pego para alvo
Tendo-os pregado, nus, nos postes de cores.

Eu estava inconsciente de toda a tripulação,
Carregador de trigo flamengo ou de algodão inglês.
Quando com meus sirgadores terminaram a algazarra
Os Rios me deixaram descer para onde eu queria.

Dentro dos marulhos furiosos das marés,
Eu, outro inverno, mais surdo que os cérebros das crianças,
Corri! E as Penínsulas desamarradas
Não sofreram confusões triunfantes.

A tempestade abençoou meus despertares marítimos.
Mais leve que uma rolha eu dancei sobre as marés
Que chamamos balanço eterno das vítimas,
Dez noites, sem prantear o óleo parvo das lanternas!

Mais doce que as crianças a carne das maçãs ácidas,
A água verde penetrou minha casca de pinho
E as manchas de vinhos azuis e os vômitos
E me lavou, dispersando leme e arpéu.

E desde então, eu me banhei dentro do poema
Do mar, infundido de astros e lactescente,
Devorando os azuis verdes; onde, na flutuação lívida
E cantante, um afogado pensativo às vezes desce;

Onde, tingindo subitamente os azuis delírios
E ritmos lentos sobre os rutilamentos do dia,
Mais fortes que o álcool, mais vastos que vossas liras,
Fermentando os ruivos amargos do amor!

Eu conheço os céus arrebentando em relâmpagos, e as trombas
E as ressacas e as correntes; eu conheço a noite,
A madrugada exaltada assim que um povo de pombas,
Eu vi às vezes o que o homem jamais acreditou ver!

Eu vi o sol baixo manchado de horrores místicos,
Iluminando do alto coágulos violetas,
Semelhante ao dos atores de dramas muito antigos
As ondas rolando ao longe seus frissons de persianas!

Eu sonhei a noite verde às neves ofuscantes,
Beijos subindo aos olhos dos mares com lentidão,
A circulação das seivas inauditas,
E o despertar amarelo e azul dos fósforos cantantes!

Eu segui, de mêses cheios, semelhantes às vacarias
Histéricas, o marulho ao assalto dos recifes,
Sem sonhar que os pés luminosos das Marias
Pudessem forçar o focinho aos Oceanos asmáticos!

Eu colidi, sabe você, de inacreditáveis Floridas
Misturando as flores dos olhos de panteras às peles
Dos homens! Dos arco-íris estendidos como as rédeas
Sobre o horizonte de mares, aos glaucos gados!

Eu vi fermentar os pântanos enormes, nassas
Onde apodreceu dentro dos juncos um inteiro Leviatã!
Os desabamentos de água ao meio das bonanças,
E os longínquos para os abismos cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, marés de nácar, céus de brasas!
Fracassos hediondos do fundo dos golfos pardos
Onde as serpentes gigantes devoradas pelos percevejos
Caem das árvores tortas com negros perfumes!

Eu quereria mostrar às crianças esses dourados
Do mar azul, esses peixes de ouro, esses peixes cantantes,
- As espumas de flores abençoaram minhas enseadas
E os inefáveis ventos me fizeram voar por instantes.

Às vezes, martírio laçado dos pólos e das zonas,
O mar cujo soluço fazia meu balanço doce
Subiam sobre mim suas flores de sombras dos ventosos amarelos
E eu ficava, portanto, como uma mulher de joelhos...

Quase-ilha, sobre minhas bordas as querelas
E os excrementos dos pássaros gritantes aos olhos louros.
E eu vogava, quando através meus laços frágeis
De afogadas desciam para dormir, recuando!

Ora, eu, barco perdido sob os cabelos das ansas
Atirado pelo furacão no éter sem pássaro,
Eu cujos Monitores e os veleiros das Hansas
Não queriam pescar de novo a carcassa ébria da água;

Livre, fumando, embarcado de brumas violetas,
Eu que abri um buraco no céu avermelhando como um muro
Que traz, geléias delicadas aos bons poetas,
Liquens de sol e mucos do azul;

Que corria, manchado de lúnulas elétricas,
Prancha louca, escoltado de hipocampos negros,
Quando os julhos faziam desabar a golpes de porrete
Os céus ultramarinos aos ardentes funis;

Eu que tremia, sentindo choramingar à cinquenta lugares
O cio do Béhémots e dos Maelstroms espessos,
Fiandeiro eterno das imobilidades azuis,
Eu anseio a Europa dos antigos parapeitos!

Eu vi os arquipélagos siderais! e ilhas
Cujos céus delirantes são abertos ao navegante:
- São nessas noites sem fundo que você dorme e se exila,
Milhões de pássaros de ouro, ó futuro Vigor?

Mas, na verdade, eu chorei muito! As madrugadas são aflitivas,
Toda lua é atroz e todo sol amargo:
O acre amor me encheu de torpores inebriantes
Ah que minha quilha quebre! Ah que eu vá ao mar!

Se eu desejo uma água da Europa, é a leve
Negra e fria para o crepúsculo embalsamado,
Uma criança agacha cheia de tristeza, solta
Um barco frágil como uma borboleta de maio.

Eu não pude mais, banhado de vossa languidez, ó ondas,
Arrebatar suas esteiras aos carregadores de algodão,
Nem atravessar o orgulho das bandeiras e das flâmulas,
Nem nadar sob os olhos horríveis dos pontões.

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