de Lautréamont
tradução de Pedro Lago
Eu me proponho, sem ser de modo algum comovido, a entoar o canto sério e frio que vocês irão ouvir. Prestem atenção ao que ele contém, e guardem a impressão penosa que vocês não carecerão de deixar, como um estigma, dentro de suas imaginações perturbadas. Não creiam que eu esteja no ponto de morrer, porque eu não sou mais um esqueleto, e a velhice não grudou na minha face. Afastemos adequadamente toda a idéia de comparação com um cisne, no momento onde sua existência se evapora, e não vejam diante de vocês um monstro, do qual eu estou feliz que vocês não possam perceber a cara, mas menos horrível é ela que sua alma!... Entretanto eu não sou mais um criminoso... o bastante sobre este assunto. Há não muito tempo que eu revi o mar e andei até o cais, e minhas memórias estão vívidas como se eu as tivesse abandonado na véspera. Sejam, contudo, se vocês o podem, tão calmos quanto eu nessa leitura da qual eu já me arrependo de oferecer, e não ruborizem ao pensamento do que é o coração humano. Ah! Dazet! Tu, cuja alma é inseparável da minha; tu, o mais belo dos filhos da mulher, embora adolescente ainda; tu, cujo nome se parece ao maior amigo da juventude de Byron; tu em quem reúnem-se nobremente, como em sua residência natural, por um comum acordo, de um laço indestrutível, a doce virtude comunicativa e as graças divinas, porque não és tu comigo, teu peito contra o meu peito, sentados todos os dois sobre algum rochedo da orla, para contemplar este espetáculo que eu adoro.
Velho Oceano, as ondas de cristal, tu te pareces proporcionalmente a essas manchas azuladas que vemos sobre as costas feridas das espumas; tu és um imenso azul sobre os corpos da terra: eu amo esta comparação. Assim, ao teu primeiro aspecto, um sopro prolongado de tristeza, que acreditamos ser o murmúrio de tua brisa suave passa deixando inefáveis traços sobre a alma profundamente abalada, e tu chamas de volta a lembrança de teus amantes, sem que se perceba sempre, os rudes princípios do homem onde ele trava conhecimento com a dor que não o deixa mais. Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, tua forma harmoniosamente esférica, que alegra a face grave da geometria, não me lembra menos do que muitos dos pequenos olhos do homem, parecidos aos do javali para a pequenez, e aos dos pássaros da noite para a perfeição circular do contorno. No entanto, o homem acreditou-se belo em todos os séculos. Eu, suponho, antes de preferência, que o homem não acreditou em sua beleza apenas por amor próprio; mas que ele não é belo realmente e que ele disso duvida; senão por que ele observa a figura de seu semelhante com tanto desprezo? Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, tu és o símbolo da identidade: sempre igual a ti mesmo. Tu não varias de uma maneira essencial, e se tuas ondas estão em alguma parte em fúria, mais ainda em qualquer outra zona elas estão na calma mais completa. Tu não és como um homem, que para na rua para ver dois buldogues se agarrando no pescoço, mas que não para quando um funeral passa; que está nesta manhã acessível e nesta noite de mal humor, que ri hoje e chora amanhã. Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, não haveria nada de impossível no que tu escondes em teus seios de futuras utilidades para o homem. Tu já lhe destes as baleias. Tu não te deixas facilmente adivinhar pelos olhos ávidos das ciências naturais os mil segredos de tua íntima organização: Tu és modesto. O homem se gaba sem cessar e para as minúcias. Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, as diferentes espécies de peixes que tu alimentas, não juraram fraternidade entre elas. Cada espécie vive de sua parte. Os temperamentos e as conformações que variam em cada uma delas, explicam de uma maneira satisfatória; o que parece a princípio uma anomalia. É desse modo um homem que não possui os mesmos motivos de desculpa. Um pedaço de terra é ocupado por trinta milhões de seres humanos, os que se crêem obrigados em não se misturar na existência de seus vizinhos, fixados como raízes sobre o pedaço de terra que perseguem. Descendo do grande ao pequeno, cada homem vive como um selvagem dentro de sua caverna, e saem raramente para visitar seu semelhante agachado igualmente dentro de outra caverna. A grande família universal dos humanos é uma utopia digna da lógica das mais medíocres. Além disso, do espetáculo de tuas tetas fecundas emerge a noção de ingratidão, porque pensa-se imediatamente aos seus parentes numerosos demasiadamente ingratos para com o Criador para abandonar o fruto de sua miserável união. Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, tua grandeza material, não pode ser comparada ao cálculo que se fez do que foi necessário de força ativa para engendrar a totalidade de tua massa. Não se pode te beijar de lampejo. Para te contemplar, é preciso que a paisagem se transforme por um momento contínuo em direção aos quatro pontos do horizonte, igualmente a um matemático que no afã de resolver uma equação algébrica, examina separadamente diversos casos possíveis antes de determinar as dificuldades. O homem come substancias nutritivas e faz outros esforços dignos de uma melhor sorte para parecer alimentado: que ela se inche tanto que ela desejará, esta rã. Sejas tranqüilo, ela não te igualará em dimensão; eu acho, pelo menos. Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, teus olhos são amargos. É exatamente o mesmo gosto da bílis que destila a critica sobre as belas artes, sobretudo as ciências, sobretudo. Se alguém tem a genialidade sobre as ciências, faz-se passar por um idiota; se um outro alguém é belo de corpo, é um corcunda abominável. Certamente, é preciso que o homem sinta com força sua imperfeição, cujos três quartos, aliás, não devem menos que a ele mesmo, para a criticar assim! Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, os homens, apensar da excelência de seus métodos, não são ainda seguros, ajudados pelos meios de investigação da ciência, a medir a profundidade vertiginosa de teus abismos; tu que tens as sondas longas, as mais pesadas reconheceram-se inacessíveis. Aos peixes isto é permitido, não aos homens. Muitas vezes eu me questionei que coisa seria mais fácil a reconhecer: a profundidade do Oceano ou a profundidade do coração humano! Muitas vezes, com a mão ao alcance da testa, em pé diante dos navios, enquanto a lua se balançava entre os mastros de um jeito irregular, eu me surpreendi fazendo abstrações de tudo o que não era o fim que eu perseguia, me esforçando para resolver esse difícil problema! Sim, qual é o mais profundo, o mais impenetrável dos dois, o Oceano ou o coração humano? Se trinta anos de experiência de vida podem até certo ponto inclinar a balança para uma ou outra dessas soluções, me será permitido dizer que, apesar da profundidade do Oceano, não se pode igualar, quanto à comparação sobre esta propriedade, com a profundeza do coração humano. Eu estive em relação com os homens que foram virtuosos. Eles morreram aos sessenta anos, e cada um não deixava de se gabar: “Eles fizeram o bem sobre esta terra, quer dizer, ele praticaram a caridade: eis tudo, isto não é malicioso, cada um pode fazer tanto quanto” Quem compreenderá porque dois amantes que se idolatram na véspera, por uma palavra mal interpretada, se afastam, um em direção ao Oriente, o outro em direção ao Ocidente, com os aguilhões do ódio, da vingança, do amor e do remorso, e não se revêem mais, cada um coberto em seu orgulho solitário. É um milagre que se renova a cada dia e que não é menos miraculoso. Quem compreenderá porque aprecia-se não somente as desgraças gerais de seus semelhantes, mas também, as particularidades de seus mais queridos amigos, mesmo de seu pai e de sua mãe, ao passo que se aflige ao mesmo tempo? Um exemplo incontestável para concluir a série: o homem diz hipocritamente sim e pensa não. É por isso que os homens tem tanta confiança uns nos outros, e não são egoístas. Resta à psicologia mais progresso a fazer. Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, tu és tão poderoso que os homens o aprenderam as suas próprias custas. Eles fazem bom uso de todos os recursos de seu gênio...; incapazes de te dominar. Eles acharam seu mestre. Eu digo que eles encontraram alguma coisa mais forte que eles. É alguma coisa, um nome. Este nome é: O Oceano! O medo que tu os inspiras é tal que eles te respeitam. Apesar disso, tu fazes valsar suas mais pesadas maquinas com graça, elegância e facilidade. Tu os fazes dar saltos ginásticos, até o céu, e dar mergulhos admiráveis até o fundo de teus domínios: um saltimbanco ficaria com inveja. Bem aventurados são eles quando tu não os envelopa definitivamente em tuas camadas espumantes para ir ver, sem trilhos, em tuas entranhas aquáticas, como se portam os peixes, e sobretudo, como se portam eles-mesmos. O homem disse: “Eu sou mais inteligente que o Oceano” É possível, mas o Oceano a ele é mais abominável que ele ao Oceano: é o que não é necessário provar. Este patriarca observador, contemporâneo das primeiras épocas de nosso globo suspenso, sorriu de pena quando viu os combates navais das nações... Eis uma centena de leviathans que saíram das mãos da humanidade! A ordens enfáticas dos superiores, os gritos dos feridos, os tiros de canhão, é o ruído feito com o propósito de aniquilar alguns segundos... O drama termina, o Oceano colocou tudo em seu ventre! Oh! Essa garganta formidável!... Quão grande deve ela ser para baixo, na direção do desconhecido! Para coroar a estúpida comédia, que não é mesmo interessante, vê-se no meio dos ares alguma cegonha atrasada pela fadiga, que se põe a gritar, sem parar a envergadura de seu vôo: “Ei! acho que é ruim! Havia lá embaixo pontos negros. Eu fechei os olhos... eles desapareceram” Eu te saúdo, velho Oceano!
Velho Oceano, ó grande celibatário, quando tu atravessas a solidão solene de teus reinos fleumáticos, tu te orgulhas acertadamente de tua magnitude nativa, e os elogios verdadeiros que me apresso em te dar. Balanças voluptuosamente pelos brilhos suaves de tua lentidão majestosa, que é a mais grandiosa entre os atributos cujo soberano poder te gratificou, tu desenrolas, no meio de um sombrio mistério, sobre tua superfície sublime, tuas ondas incomparáveis com o sentimento calmo de teu poder eterno. Elas se acompanham paralelamente, separadas por curtos intervalos. Mal uma diminui, uma outra vai até ela se reencontrar crescendo, acompanhadas elo ruído melancólico da espuma. (desta forma os seres humanos, as ondas vívidas, extinguem uma após a outra de uma maneira monótona, mas sem deixar o barulho espumoso) O pássaro de passagem descansa sobre elas com confiança, e se deixa abandonar a seus movimentos cheios de uma graça orgulhosa, até que os ossos de suas asas tenham recuperado seu vigor acostumado para continuar a peregrinação aérea. Eu gostaria que a dignidade humana não fosse nada menos que uma encarnação do reflexo da tua; eu desejo muito. Este desejo sincero é glorioso para ti. Tua grandeza moral, imagem do infinito, é imensa como a reflexão do filosofo, como o amor da mulher, como a beleza divina do pássaro, com as meditações do poeta. Tu és mais belo que a noite. Responda-me, Oceano, tu queres ser meu irmão? Me agites com impetuosidade, mais... mais ainda, se tu quiseres que eu te compare à vingança de Deus; alongues tuas garras lívidas abrindo um caminho sobre teu próprio seio... é ótimo... Desenroles tuas ondas abomináveis, Oceano repugnante, compreendido por mim somente e diante do qual eu tombo, prosternado a teus joelhos. A dignidade do homem é emprestada; ele não me imporá um ponto. Tu, sim. Oh! Quando tu avanças a alta crista e terrível, cercada de tuas dobras tortuosas como de uma corte, magnetizador e feroz, rolando tuas ondas umas sobre as outras, com a consciência de que tu és, para que tu cresças das profundezas de teu peito, como que comovido de um remorso intenso que eu não pude descobrir, este surdo rugido perpétuo que os homens receiam tanto, mesmo quando eles te contemplam em segurança, trêmulos sobre a margem, então, eu vejo que ele não me pertence, o direito notável de me dizer teu igual. É porque na presença de tua superioridade, eu te daria todo o meu amor (e nulo não sabes a quantidade de amor que contem minha aspirações sobre o belo), se tu não me fizesses dolorosamente pensar aos meus semelhantes, que formam com ti o mais irônico contraste, a antítese mais bufônica que jamais se viu na criação: Eu não posso te amar. Eu te detesto. Porque volto a ti pela milésima vez, em direção a teus braços amigos que se entreabrem para acariciar meu rosto ardente, que vê desaparecer a febre em teu contato! Eu não conheço teu destino escondido: Tudo que te concerne me interessa. Digas para mim então se tu és a morada do Príncipe das Trevas. Dizes para mim, dizes para mim, Oceano (a mim somente para não entristecer os que ainda não conheceram nada menos que ilusões) e se o sopro de Satan criou as tempestades que agitam teus olhos salgados até as nuvens. É preciso que tu me digas, porque eu me alegraria em conhecer o inferno tão perto do homem. Eu quero que esta seja a última estrofe da minha invocação. Assim sendo, uma última vez de novo, eu quero te saldar e te fazer meus adeuses! Velho Oceano, as ondas de cristal... Meus olhos se molham de lágrimas abundantes, e eu não tenho a força de perseguir, pois eu sinto que o momento de voltar para entre os homens chegou, ao aspecto brutal: Mas; coragem! Façamos um grande esforço e terminemos com o sentimento do dever, nosso destino sobre esta terra. Eu te saúdo, velho Oceano!
Pedro Lago.