quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Une Saison en Enfer - Primeira parte

de Jean Arthur Rimbaud
tradução de Pedro Lago


Outrora, se me lembro bem, minha vida era um banquete onde se abriam todos os corações, onde todos os vinhos corriam.
Uma noite, eu sentei a Beleza sobre meus joelhos. – E achei-a amarga. – E a injuriei.
Eu me armei contra a justiça.
Fugi. Oh bruxas, oh miséria, oh ódio, é a vós que meu tesouro foi confiado!
Cheguei a fazer desaparecer do meu espírito toda a esperança humana. Sobre toda a alegria, para estrangular, eu fiz o salto surdo da besta feroz.
Chamei os carrascos para, perecendo, morder o cabo de seus fuzis. Chamei as degraças, para me entupir com a areia e o sangue. A mágoa foi meu deus. Eu me esparramei na lama. Eu me sequei no ar do crime. E eu dei bons passeios na loucura.
E a primavera me trouxe o abominável riso do idiota.
Mas, recentemente, tendo me encontrado sobre o ponto de fazer a últiima mancada, sonhei em procurar a chave do banquete antigo, onde retomaria talvez o apetite.
A caridade é esta chave. – Esta inspiração prova que eu sonhei!
“Tu permanecerás hiena…” etc… recria-se o demônio que me coroou de amáveis papoulas. “Ganhe a morte com todos os apetites, e teu egoísmo e todas os pecados capitais.”
Ah! Estou muito ocupado:  - Mas, caro Satã, eu vos conjuro uma pupila menos irritada! E atendendo a algumas pequenas covardias atrasadas, vós que amais nos escritores a ausência de faculdades descritivas ou instrutivas, eu vos destaco algumas terríveis folhas de meu caderno de amaldiçoado.

domingo, 6 de novembro de 2011

Corpo Aberto


para Afonso Henriques Neto

Busca pela linguagem
quem sabe inalcançável,
de uma maturidade
igualmente estável
em querer dizer as coisas.

De fato, nem todos são
aquilo que são, mas
observo-os, podem ter
tido algo semelhante
à uma epifania, na
clarividência dos cantos
escuros da ideia, onde talvez,
esteja a tal fonte de tudo.

É estranho perceber.

A fruta e mais bela após considerar
uma natureza-morta,
o vento e a ave são primorosos,
se os ouço depois do cravo ou do violino.

Parece tão simples, mas
é estranho perceber.

Quebra-se a casca e surge o pó
das cores que coram as letras,
pretensa voz disputando o último discurso.

Não é para poetas que falo,
nem mesmo para mim,
por que fazê-lo?

Então, meu tio e o enfermeiro
me fitam sorrindo, se lhes digo
algo íntimo. A conversa fica
mais leve.

É o retorno silencioso.

Não são as palmas nem os elogios,
é o trivial vindo de não sei onde
que me sussurra : “Continua!”

Abro meu corpo e uso tudo que tenho.
Choro e faço doer em mim o que está fora,
e me defino admirando os outros.

Por um momento não me sinto
perdido, volto ao ventre e
deito-me para a esquerda.

É estranho perceber.

Perder-se o tempo inteiro até voltar para casa,
e não tenho mais medo.

Tudo faz sentido:

A tarde, a maçã, o teatro de bonecos,
o início da primavera.

Não quero a razão de nada.
A vida por um momento de expansão,
um filho.

Deve ser isso,
um instante eterno de imensidão.

Fosse tudo nesse segundo,
valeria mais a pena.

O trabalho dentro da sintonia lúdica
que vive, mas se afasta.
O menino, o brinquedo de madeira,
o jogo de botão, a primeira vez
que se ouviu As Bachianas,
o mingau de aveia.

É estranho perceber.

Lembranças se apagam,
e fica apenas a vontade
de pedir um abraço,
dizer coisas essenciais,
de voltar de voltar de voltar.

Mas, não. Saem escamas, a pele,
entram os olhares, a virtude
e o vazio muda.

Não sou mais o mesmo.

Vem a distinção de si ao mundo,
o corpo aberto, a alma nua,
a relação com a vaidade,
e uma rara revelação de seu próprio tamanho.

Surge o compromisso com a palavra,
o diálogo com a tradição,
a perpetuação da voz
e a constante busca pelo novo.

Porém,
é estranho perceber.


in Corpo Aberto, Ibis Libris, 2010


Pedro Lago

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Le bateau ivre

de Jean Arthur Rimbaud
tradução: Pedro Lago


Como eu descia os Rios Impassíveis,
Não me senti mais guiado pelos sirgadores.
Os Peles-Vermelhas berrantes os tinham pego para alvo
Tendo-os pregado, nus, nos postes de cores.

Eu estava inconsciente de toda a tripulação,
Carregador de trigo flamengo ou de algodão inglês.
Quando com meus sirgadores terminaram a algazarra
Os Rios me deixaram descer para onde eu queria.

Dentro dos marulhos furiosos das marés,
Eu, outro inverno, mais surdo que os cérebros das crianças,
Corri! E as Penínsulas desamarradas
Não sofreram confusões triunfantes.

A tempestade abençoou meus despertares marítimos.
Mais leve que uma rolha eu dancei sobre as marés
Que chamamos balanço eterno das vítimas,
Dez noites, sem prantear o óleo parvo das lanternas!

Mais doce que as crianças a carne das maçãs ácidas,
A água verde penetrou minha casca de pinho
E as manchas de vinhos azuis e os vômitos
E me lavou, dispersando leme e arpéu.

E desde então, eu me banhei dentro do poema
Do mar, infundido de astros e lactescente,
Devorando os azuis verdes; onde, na flutuação lívida
E cantante, um afogado pensativo às vezes desce;

Onde, tingindo subitamente os azuis delírios
E ritmos lentos sobre os rutilamentos do dia,
Mais fortes que o álcool, mais vastos que vossas liras,
Fermentando os ruivos amargos do amor!

Eu conheço os céus arrebentando em relâmpagos, e as trombas
E as ressacas e as correntes; eu conheço a noite,
A madrugada exaltada assim que um povo de pombas,
Eu vi às vezes o que o homem jamais acreditou ver!

Eu vi o sol baixo manchado de horrores místicos,
Iluminando do alto coágulos violetas,
Semelhante ao dos atores de dramas muito antigos
As ondas rolando ao longe seus frissons de persianas!

Eu sonhei a noite verde às neves ofuscantes,
Beijos subindo aos olhos dos mares com lentidão,
A circulação das seivas inauditas,
E o despertar amarelo e azul dos fósforos cantantes!

Eu segui, de mêses cheios, semelhantes às vacarias
Histéricas, o marulho ao assalto dos recifes,
Sem sonhar que os pés luminosos das Marias
Pudessem forçar o focinho aos Oceanos asmáticos!

Eu colidi, sabe você, de inacreditáveis Floridas
Misturando as flores dos olhos de panteras às peles
Dos homens! Dos arco-íris estendidos como as rédeas
Sobre o horizonte de mares, aos glaucos gados!

Eu vi fermentar os pântanos enormes, nassas
Onde apodreceu dentro dos juncos um inteiro Leviatã!
Os desabamentos de água ao meio das bonanças,
E os longínquos para os abismos cataratantes!

Geleiras, sóis de prata, marés de nácar, céus de brasas!
Fracassos hediondos do fundo dos golfos pardos
Onde as serpentes gigantes devoradas pelos percevejos
Caem das árvores tortas com negros perfumes!

Eu quereria mostrar às crianças esses dourados
Do mar azul, esses peixes de ouro, esses peixes cantantes,
- As espumas de flores abençoaram minhas enseadas
E os inefáveis ventos me fizeram voar por instantes.

Às vezes, martírio laçado dos pólos e das zonas,
O mar cujo soluço fazia meu balanço doce
Subiam sobre mim suas flores de sombras dos ventosos amarelos
E eu ficava, portanto, como uma mulher de joelhos...

Quase-ilha, sobre minhas bordas as querelas
E os excrementos dos pássaros gritantes aos olhos louros.
E eu vogava, quando através meus laços frágeis
De afogadas desciam para dormir, recuando!

Ora, eu, barco perdido sob os cabelos das ansas
Atirado pelo furacão no éter sem pássaro,
Eu cujos Monitores e os veleiros das Hansas
Não queriam pescar de novo a carcassa ébria da água;

Livre, fumando, embarcado de brumas violetas,
Eu que abri um buraco no céu avermelhando como um muro
Que traz, geléias delicadas aos bons poetas,
Liquens de sol e mucos do azul;

Que corria, manchado de lúnulas elétricas,
Prancha louca, escoltado de hipocampos negros,
Quando os julhos faziam desabar a golpes de porrete
Os céus ultramarinos aos ardentes funis;

Eu que tremia, sentindo choramingar à cinquenta lugares
O cio do Béhémots e dos Maelstroms espessos,
Fiandeiro eterno das imobilidades azuis,
Eu anseio a Europa dos antigos parapeitos!

Eu vi os arquipélagos siderais! e ilhas
Cujos céus delirantes são abertos ao navegante:
- São nessas noites sem fundo que você dorme e se exila,
Milhões de pássaros de ouro, ó futuro Vigor?

Mas, na verdade, eu chorei muito! As madrugadas são aflitivas,
Toda lua é atroz e todo sol amargo:
O acre amor me encheu de torpores inebriantes
Ah que minha quilha quebre! Ah que eu vá ao mar!

Se eu desejo uma água da Europa, é a leve
Negra e fria para o crepúsculo embalsamado,
Uma criança agacha cheia de tristeza, solta
Um barco frágil como uma borboleta de maio.

Eu não pude mais, banhado de vossa languidez, ó ondas,
Arrebatar suas esteiras aos carregadores de algodão,
Nem atravessar o orgulho das bandeiras e das flâmulas,
Nem nadar sob os olhos horríveis dos pontões.

domingo, 2 de outubro de 2011

Elegia para José de Alencar Adnet Filho



   “Alegremo-nos, suspensas ingentes lâmpadas. E: "Sobe a luz sobre o justo e dá-se ao teso coração alegria!" - desfere então o salmo. As pessoas não morrem, ficam encantadas. “

                                                                                                      João Guimarães Rosa

No início das noites, algo em mim despertava
e me fazia varar pelos corredores da casa
até me esconder atrás de um grande sofá.

Era a expectativa para o barulho da porta,
as chaves tombando na mesa e, enfim, tua voz.

Quando me dissestes (tarde) que teu maior desejo
era o de retornar logo ao lar, mal sabias que em mim
ocorria o mesmo fenômeno.
                                                   Tua camisa amassada,
tua bolsa verde cheia de surpresas,
eras a consagração do dia que terminava
dali em diante, nada mais me tirava de ti (nem o jantar)
e voltávamos ao polvo contorcido de nossos braços
que se entrecruzavam com os beijos que me davas
até que eu adormecesse sorrindo.

Certa vez (lembro bem) persisti na sustentação da bola
de borracha após tuas poucas palavras,
a glória veio de imediato:
-       Pai, consegui fazer dez!

E assim tudo era feito na lapidação constante
pela calma com que me fazias caminhar,
na observação de teus movimentos
qual um discípulo prematuro, ou um pequeno bezerro.

Se a capacidade de amar na vida
vem  do que se recebe na infância,
hoje, como o poeta russo,
sou um transbordamento, completo coração.

Pois tu não fostes meu guia, tampouco mestre,
mas esfera incandescente de afeto,
ou algo que um aglomerado de letras não atinge
mas que traz a substância do início de tudo.

Diante de tua imagem, hoje exposta na mesa,
aquilo que me surgia naquelas noites jovens,
quando o menino aguardava ser pleno
para entregar-se ao sono seguro,
tornou-se lágrima vertida com o peito imenso,
vontade de ser metade como tu fostes,
e garantia de que em qualquer fim de tarde,
como aqueles em que te aguardava ansioso,
alguma carícia minha lembre teu nome.


Pedro Lago.

domingo, 11 de setembro de 2011

Zeca

para meu pai




Meu pai é um cara boa-
praça, daqueles como
havia nos botequins
do centro da cidade,
sorrindo ao fim de mais
um dia, na sagrada
porrinha com os garçons
do galeto. “Um, dois, três,
cinco, lona!”, e é o campeão
mundial das sacadas curtas
que tanto me alegravam
quando criança, pois eu
lembro: chamei-o de papai
aos três anos de idade,
muito pequenininho,
despertando na ternura
de sua incontestável
bondade.

Meu pai. Homem aflito,
pensa muito no meu
futuro, e me quer feliz,
tendo as coisas que ele
não teve, por isso ama
tanto que nem sente.
É um santo barroco
boêmio, acertando o placê
só de brincadeira: “Lá vem
o Juvenal!” e o Fluminense,
máquina dos anos oitenta,
time de bigodudos, mas
eu quis ser o rival, e corri
muitas vezes pro seu colo
de manhã bem cedo, fazendo
barulho de mosca no seu ouvido,
e acreditava que ele estava
realmente dormindo.

Meu pai atende por Zeca
Peteca Nariz de Boneca,
e não há como não sorrir
de suas piadas, mesmo hoje.
Ele é o maior nas palavras
cruzadas, e sabe muito bem
que não estaria neste verso
não fosse ele assim tão
perfeito.

Paizinho, que caiu três vezes
na quadra da escola, muito
muito ruim de bola, e abriu
o bocão na foto da praia do
Leme, e até hoje o lugar
comum de “Pai-Herói”
é certíssimo, por isso,
não sei por onde começar
a descrevê-lo, deixo aos
outros, pois tenho um
anjo dentro de casa. Fato.
Sem nenhum exagero.


(in Corpo Aberto, Ibis Libris, 2010)


Pedro Lago.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Partir


Esta vontade de ir
sem saber como será depois,
o amanhã como aprendi
a temê-lo e, mesmo assim,
querer partir...

O nebuloso branco entre a luz
e o verde desce sobre mim
em penumbra,
na esplendida música do vento,
a desfazer o que há de ansiedade
mesmo sem saber o que virá,
diante de tantos anseios
e tudo que segue.

Muito a fazer pela compreensão
da liberdade,
e outros tantos doze trabalhos
a concluir.

Aproveitar, dizem,
gozar a vida no que há
de mais aprazível,

música...

A clemência para que tudo dê certo,
que a fome dos sentidos não se torne
maior que a grandeza do espírito,

fáceis palavras...

Os frêmitos às inconstâncias d’aurora
pelos carinhos que fazem tudo não ser
como é,

resistência...

O equilíbrio da paranoia contemporânea,
o cantar calmo do bem-te-vi,
simples assim,

a ternura de quem sempre esteve perto,
salvo imperfeições, desconhecimentos,
aquarelas das mesmas praias,
gerando outras percepções
a restituir os estados naturais
juntos às lágrimas em
incessante depuração,

como estar sentado ali, só,
e alguém vir e também lhe sorrir:

– Olá!


Pedro Lago.


in Corpo Aberto, Ibis Libris, 2010

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Empório

para Vicente

Cheio de mim, submerso,
de pé, no bar, a beber a
saliva da noite.
Assim mesmo,
jogado às palavras exageradas,
querendo ser como Eliot(!) ,
mas a pensar no velho Bukowski(!!).

Ipanema Cosmopolitan,
muitas línguas a se despirem
dos ritmos. Poesia é ritmo,
intenção é perfume que surge
ao lado dela, cantando como
a própria Callas, a sustentar um
lirismo noturno, submerso, de pé,
no bar novamente...

Un coup de foudre a cada minuto,
fáceis definições efêmeras,
pois assim as coisas se dão:

Canudos – pedras de gelo.
Pedras de gelo – canudos.

Mexe
mexe
mexe

faz subir o açúcar do fundo,
faz subir o fermento do lúpulo,
já em falta nas indústrias,
faz subir o preço e o apreço
pelos objetos,
nas alegorias que tanto clamam
atenção,
homem, pavão de si no meio
do poema,
e todo mundo muito feliz hoje,
eu também,
submerso, de pé, no bar,
a beber a saliva da noite.




Pedro Lago.

domingo, 10 de julho de 2011

LXXVII. SPLEEN

de Charles Baudelaire
tradução Pedro Lago


Eu sou como o rei de um país chuvoso
Rico, mas desamparado, jovem e ao mesmo tempo muito velho
Quem, de seus mentores desdenha as reverências,
Se aborrece com seus cachorros como com outros bobos.
Nada pode o alegrar, nem um animal de caça, nem um falcão
Nem seu povo morrendo em frente à sacada.
Do bufão favorito a grotesca balada
Não distrai mais a face deste cruel doente;
Sua cama ornada de flores de lis se transforma em túmulo,
E as damas do quarto de dormir, para quem todo príncipe é belo,
Não sabem mais achar o impudico toalete
Para gerar um sorriso deste jovem esqueleto.
O erudito que fê-lo ouro jamais pode
De seu ser remover o elemento corrompido,
E nestes banhos de sangue que os Romanos nos trouxeram
E cujos velhos tempos os poderosos se recordam,
Ele não soube aquecer este cadaver atordoado
Onde corre no lugar de sangue a água verde do Létes.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

'Vieil Océan' de Les Chants de Maldoror

de Lautréamont
tradução de Pedro Lago


Eu me proponho, sem ser de modo algum comovido, a entoar o canto sério e frio que vocês irão ouvir. Prestem atenção ao que ele contém, e guardem a impressão penosa que vocês não carecerão de deixar, como um estigma, dentro de suas imaginações perturbadas. Não creiam que eu esteja no ponto de morrer, porque eu não sou mais um esqueleto, e a velhice não grudou na minha face. Afastemos adequadamente toda a idéia de comparação com um cisne, no momento onde sua existência se evapora, e não vejam diante de vocês um monstro, do qual eu estou feliz que vocês não possam perceber a cara, mas menos horrível é ela que sua alma!... Entretanto eu não sou mais um criminoso... o bastante sobre este assunto. Há não muito tempo que eu revi o mar e andei até o cais, e minhas memórias estão vívidas como se eu as tivesse abandonado na véspera.  Sejam, contudo, se vocês o podem, tão calmos quanto eu nessa leitura da qual eu já me arrependo de oferecer, e não ruborizem ao pensamento do que é o coração humano. Ah! Dazet! Tu, cuja alma é inseparável da minha; tu, o mais belo dos filhos da mulher, embora adolescente ainda; tu, cujo nome se parece ao maior amigo da juventude de Byron; tu em quem reúnem-se nobremente, como em sua residência natural, por um comum acordo, de um laço indestrutível, a doce virtude comunicativa e as graças divinas, porque não és tu comigo, teu peito contra o meu peito, sentados todos os dois sobre algum rochedo da orla, para contemplar este espetáculo que eu adoro.

Velho Oceano, as ondas de cristal, tu te pareces proporcionalmente a essas manchas azuladas que vemos sobre as costas feridas das espumas; tu és um imenso azul sobre os corpos da terra: eu amo esta comparação. Assim, ao teu primeiro aspecto, um sopro prolongado de tristeza, que acreditamos ser o murmúrio de tua brisa suave passa deixando inefáveis traços sobre a alma profundamente abalada, e tu chamas de volta a lembrança de teus amantes, sem que se perceba sempre, os rudes princípios do homem onde ele trava conhecimento com a dor que não o deixa mais. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tua forma harmoniosamente esférica, que alegra a face grave da geometria, não me lembra menos do que muitos dos pequenos olhos do homem, parecidos aos do javali para a pequenez, e aos dos pássaros da noite para a perfeição circular do contorno. No entanto, o homem acreditou-se belo em todos os séculos. Eu, suponho, antes de preferência, que o homem não acreditou em sua beleza apenas por amor próprio; mas que ele não é belo realmente e que ele disso duvida; senão por que ele observa a figura de seu semelhante com tanto desprezo? Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tu és o símbolo da identidade: sempre igual a ti mesmo. Tu não varias de uma maneira essencial, e se tuas ondas estão em alguma parte em fúria, mais ainda em qualquer outra zona elas estão na calma mais completa. Tu não és como um homem, que para na rua para ver dois buldogues se agarrando no pescoço, mas que não para quando um funeral passa; que está nesta manhã acessível e nesta noite de mal humor, que ri hoje e chora amanhã. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, não haveria nada de impossível no que tu escondes em teus seios de futuras utilidades para o homem. Tu já lhe destes as baleias. Tu não te deixas facilmente adivinhar pelos olhos ávidos das ciências naturais os mil segredos de tua íntima organização: Tu és modesto. O homem se gaba sem cessar e para as minúcias. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, as diferentes espécies de peixes que tu alimentas, não juraram fraternidade entre elas. Cada espécie vive de sua parte. Os temperamentos e as conformações que variam em cada uma delas, explicam de uma maneira satisfatória; o que parece a princípio uma anomalia. É desse modo um homem que não possui os mesmos motivos de desculpa. Um pedaço de terra é ocupado por trinta milhões de seres humanos, os que se crêem obrigados em não se misturar na existência de seus vizinhos, fixados como raízes sobre o pedaço de terra que perseguem. Descendo do grande ao pequeno, cada homem vive como um selvagem dentro de sua caverna, e saem raramente para visitar seu semelhante agachado igualmente dentro de outra caverna. A grande família universal dos humanos é uma utopia digna da lógica das mais medíocres. Além disso, do espetáculo de tuas tetas fecundas emerge a noção de ingratidão, porque pensa-se imediatamente aos seus parentes numerosos demasiadamente ingratos para com o Criador para abandonar o fruto de sua miserável união. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tua grandeza material, não pode ser comparada ao cálculo que se fez do que foi necessário de força ativa para engendrar a totalidade de tua massa. Não se pode te beijar de lampejo. Para te contemplar, é preciso que a paisagem se transforme por um momento contínuo em direção aos quatro pontos do horizonte, igualmente a um matemático que no afã de resolver uma equação algébrica, examina separadamente diversos casos possíveis antes de determinar as dificuldades. O homem come substancias nutritivas e faz outros esforços dignos de uma melhor sorte para parecer alimentado: que ela se inche tanto que ela desejará, esta rã. Sejas tranqüilo, ela não te igualará em dimensão; eu acho, pelo menos. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, teus olhos são amargos. É exatamente o mesmo gosto da bílis que destila a critica sobre as belas artes, sobretudo as ciências, sobretudo. Se alguém tem a genialidade sobre as ciências, faz-se passar por um idiota; se um outro alguém é belo de corpo, é um corcunda abominável. Certamente, é preciso que o homem sinta com força sua imperfeição, cujos três quartos, aliás, não devem menos que a ele mesmo, para a criticar assim! Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, os homens, apensar da excelência de seus métodos, não são ainda seguros, ajudados pelos meios de investigação da ciência, a medir a profundidade vertiginosa de teus abismos; tu que tens as sondas longas, as mais pesadas reconheceram-se inacessíveis.  Aos peixes isto é permitido, não aos homens. Muitas vezes eu me questionei que coisa seria mais fácil a reconhecer: a profundidade do Oceano ou a profundidade do coração humano! Muitas vezes, com a mão ao alcance da testa, em pé diante dos navios, enquanto a lua se balançava entre os mastros de um jeito irregular, eu me surpreendi fazendo abstrações de tudo o que não era o fim que eu perseguia, me esforçando para resolver esse difícil problema! Sim, qual é o mais profundo, o mais impenetrável dos dois, o Oceano ou o coração humano? Se trinta anos de experiência de vida podem até certo ponto inclinar a balança para uma ou outra dessas soluções, me será permitido dizer que, apesar da profundidade do Oceano, não se pode igualar, quanto à comparação sobre esta propriedade, com a profundeza do coração humano. Eu estive em relação com os homens que foram virtuosos. Eles morreram aos sessenta anos, e cada um não deixava de se gabar: “Eles fizeram o bem sobre esta terra, quer dizer, ele praticaram a caridade: eis tudo, isto não é malicioso, cada um pode fazer tanto quanto” Quem compreenderá porque dois amantes que se idolatram na véspera, por uma palavra mal interpretada, se afastam, um em direção ao Oriente, o outro em direção ao Ocidente, com os aguilhões do ódio, da vingança, do amor e do remorso, e não se revêem mais, cada um coberto em seu orgulho solitário. É um milagre que se renova a cada dia e que não é menos miraculoso. Quem compreenderá porque aprecia-se não somente as desgraças gerais de seus semelhantes, mas também, as particularidades de seus mais queridos amigos, mesmo de seu pai e de sua mãe, ao passo que se aflige ao mesmo tempo? Um exemplo incontestável para concluir a série: o homem diz hipocritamente sim e pensa não. É por isso que os homens tem tanta confiança uns nos outros, e não são egoístas. Resta à psicologia mais progresso a fazer. Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, tu és tão poderoso que os homens o aprenderam as suas próprias custas. Eles fazem bom uso de todos os recursos de seu gênio...; incapazes de te dominar. Eles acharam seu mestre. Eu digo que eles encontraram alguma coisa mais forte que eles. É alguma coisa, um nome. Este nome é: O Oceano! O medo que tu os inspiras é tal que eles te respeitam. Apesar disso, tu fazes valsar suas mais pesadas maquinas com graça, elegância e facilidade. Tu os fazes dar saltos ginásticos, até o céu, e dar mergulhos admiráveis até o fundo de teus domínios: um saltimbanco ficaria com inveja. Bem aventurados são eles quando tu não os envelopa definitivamente em tuas camadas espumantes para ir ver, sem trilhos, em tuas entranhas aquáticas, como se portam os peixes, e sobretudo, como se portam eles-mesmos. O homem disse: “Eu sou mais inteligente que o Oceano” É possível, mas o Oceano a ele é mais abominável que ele ao Oceano: é o que não é necessário provar. Este patriarca observador, contemporâneo das primeiras épocas de nosso globo suspenso, sorriu de pena quando viu os combates navais das nações... Eis uma centena de leviathans que saíram das mãos da humanidade! A ordens enfáticas dos superiores, os gritos dos feridos, os tiros de canhão, é o ruído feito com o propósito de aniquilar alguns segundos... O drama termina, o Oceano colocou tudo em seu ventre! Oh! Essa garganta formidável!... Quão grande deve ela ser para baixo, na direção do desconhecido! Para coroar a estúpida comédia, que não é mesmo interessante, vê-se no meio dos ares alguma cegonha atrasada pela fadiga, que se põe a gritar, sem parar a envergadura de seu vôo: “Ei! acho que é ruim! Havia lá embaixo pontos negros. Eu fechei os olhos... eles desapareceram” Eu te saúdo, velho Oceano!

Velho Oceano, ó grande celibatário, quando tu atravessas a solidão solene de teus reinos fleumáticos, tu te orgulhas acertadamente de tua magnitude nativa, e os elogios verdadeiros que me apresso em te dar. Balanças voluptuosamente pelos brilhos suaves de tua lentidão majestosa, que é a mais grandiosa entre os atributos cujo soberano poder te gratificou, tu desenrolas, no meio de um sombrio mistério, sobre tua superfície sublime, tuas ondas incomparáveis com o sentimento calmo de teu poder eterno. Elas se acompanham paralelamente, separadas por curtos intervalos. Mal uma diminui, uma outra vai até ela se reencontrar crescendo, acompanhadas elo ruído melancólico da espuma. (desta forma os seres humanos, as ondas vívidas, extinguem uma após a outra de uma maneira monótona, mas sem deixar o barulho espumoso) O pássaro de passagem descansa sobre elas com confiança, e se deixa abandonar a seus movimentos cheios de uma graça orgulhosa, até que os ossos de suas asas tenham recuperado seu vigor acostumado para continuar a peregrinação aérea. Eu gostaria que a dignidade humana não fosse nada menos que uma encarnação do reflexo da tua; eu desejo muito. Este desejo sincero é glorioso para ti. Tua grandeza moral, imagem do infinito, é imensa como a reflexão do filosofo, como o amor da mulher, como a beleza divina do pássaro, com as meditações do poeta. Tu és mais belo que a noite. Responda-me, Oceano, tu queres ser meu irmão? Me agites com impetuosidade, mais... mais ainda, se tu quiseres que eu te compare à vingança de Deus; alongues tuas garras lívidas abrindo um caminho sobre teu próprio seio... é ótimo... Desenroles tuas ondas abomináveis, Oceano repugnante, compreendido por mim somente e diante do qual eu tombo, prosternado a teus joelhos. A dignidade do homem é emprestada; ele não me imporá um ponto. Tu, sim. Oh! Quando tu avanças a alta crista e terrível, cercada de tuas dobras tortuosas como de uma corte, magnetizador e feroz, rolando tuas ondas umas sobre as outras, com a consciência de que tu és, para que tu cresças das profundezas de teu peito, como que comovido de um remorso intenso que eu não pude descobrir, este surdo rugido perpétuo que os homens receiam tanto, mesmo quando eles te contemplam em segurança, trêmulos sobre a margem, então, eu vejo que ele não me pertence, o direito notável de me dizer teu igual. É porque na presença de tua superioridade, eu te daria todo o meu amor (e nulo não sabes a quantidade de amor que contem minha aspirações sobre o belo), se tu não me fizesses dolorosamente pensar aos meus semelhantes, que formam com ti o mais irônico contraste, a antítese mais bufônica que jamais se viu na criação: Eu não posso te amar. Eu te detesto. Porque volto a ti pela milésima vez, em direção a teus braços amigos que se entreabrem para acariciar meu rosto ardente, que vê desaparecer a febre em teu contato! Eu não conheço teu destino escondido: Tudo que te concerne me interessa. Digas para mim então se tu és a morada do Príncipe das Trevas. Dizes para mim, dizes para mim, Oceano (a mim somente para não entristecer os que ainda não conheceram nada menos que ilusões) e se o sopro de Satan criou as tempestades que agitam teus olhos salgados até as nuvens. É preciso que tu me digas, porque eu me alegraria em conhecer o inferno tão perto do homem. Eu quero que esta seja a última estrofe da minha invocação.  Assim sendo, uma última vez de novo, eu quero te saldar e te fazer meus adeuses! Velho Oceano, as ondas de cristal... Meus olhos se molham de lágrimas abundantes, e eu não tenho a força de perseguir, pois eu sinto que o momento de voltar para entre os homens chegou, ao aspecto brutal: Mas; coragem! Façamos um grande esforço e terminemos com o sentimento do dever, nosso destino sobre esta terra. Eu te saúdo, velho Oceano!


 Pedro Lago.


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O visitante


para Ana Barbosa, Bárbara Kruger, Damu Shiva, Daniela Ervolino, Diana Cataldo, Gabriela Giffoni, Gabriela Flarys, Juliana Saint-Brisson, Lívia Lima, Maria Motta, Pedro Ramôa, Rafael Pere, Samuel MacDowell, Sandra Vermom e Susanna Kruger



Porque foi uma última súplica.
Algo que o tirasse daquele trem,
algo que o fizesse pular e… pulou.
Não temeu a velocidade, nem o capim
seco que recebera seu tombo. As
feridas no corpo e o calor da terra
lhe deram impressão de ave
em vôo primeiro.

Também não correu. Sentiu cada
cheiro daquele extenso campo
que lhe abraçava em golpes de brisa.

Sabia que não estava sozinho.

Percebeu uma pequena vila, de onde
saía um canto que lhe convidava
a entrar e…foi.

Espantado, caminhava por entre as
casas cujas portas se encontravam
abertas. Seguiu e, aos poucos, sentiu-se
acolhido pelos olhares que apareciam
nas janelas. Verdes, azuis, castanhos,
de mulheres, moços, senhoras…
algo se estabelecia enquanto, só, via
os acenos que recebia. Não era a infância
nem o ultimo amor, era uma ternura
nascida da carne que lhe subia

Conheceu suas vidas, entrou nas casas,
experimentou suas bebidas, sabores,
e por ali permaneceu.

Parecia que aquela vila sempre
o aguardava, como se precisasse
saber o gosto do sumo das lágrimas
daqueles estranhos habitantes.
E foi isso que fez.

Apaixonou-se em pensamento,
brigou, trocou carícias, toques,
jurou futuros, canções,
indagou seus passados, seus
instantes íntimos, se embrenhou
em suas almas como um hino.

Entregava-se gota a gota.
A cada dia deixava um pedaço,
despetalando-se nas portas
das casas como se deixasse
um presente.

Penetralham-lhe o âmago
e ali também fizeram morada.

E dentro dele, lumineceram os
becos ocultos, reconstruiram
estátuas, recompuseram o que
estava esquecido e…tudo mudou.

Não era mais o mesmo.

Eis que a seiva que lhe
sustentava jorrou em outras lágrimas
que tocaram o solo, onde, entre pedras,
uma pequena flor surgiu. Era frágil,
mas chegou à superficie.

Chamou todos para vê-la,
e sorrindo, fizeram um círculo.
vertia mais e mais lágrimas
seu corpo todo foi diluindo
em aromas de relva.

Não mais era dono de seu corpo,
não mais era dono de seus sentidos,
ele era todos, e todos eram ele.

No ápice do transbordamento de
seu afeto, no instante da vertigem,
no ultimo choque do pêndulo…

Não aguentou mais,
enfim, entregou-se por completo
e transformou-se em música.

Pedro Lago.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Elegia para João Jorge Proença Vargas de Andrade

Talhado na madeira escura
de um quarto de tintas,
um quarteto de jazz toca
seu último número.
Entre o diálogo dos
sopros, nos sulcos do papel
manteiga, os braços ritmados
do baterista touro guerreiro
de estrela única, e é só sorrisos
na tranquilidade do compasso,
atento à curva de um joquei,
que, do lado, dispara em linha reta.

É o meu tio primo amigo
e mestre de beebop e judô
na turva fumaça do cachimbo
preenchendo o sol que surge
na janela, onde, calado, vê o céu
das seis horas mudar o tom.

Carrega um livro velho
e rasgado dentro do bolso,
resolvendo as equações do oculto
pela obsessão de sua testa franzida
pensando qual astrônomo
enquanto dialoga com
nuvens e signos, luciluzindo
na face que se forma na
mesma madeira,
onde tudo se compõe.


Pedro Lago.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

À Virgile

de Victor Hugo
tradução de Pedro Lago


Ó Virgílio! Ó poeta! Ó meu mestre divino!
Venha, deixemos esta cidade ao grito sinistro e vão,
A qual é gigante e jamais fecha a pálpebra,
Esprema uma onda espumante entres seus flancos de pedra,
Lutécia, tão pequena nos tempos de seus Césares,
E que joga hoje, cidade cheia de charretes,
Sobre o nome estridente cujo mundo nomeia,
Mais clareza que Atenas, mais barulho que Roma.

Por você que nos bosques faz, como a água dos céus,
Cair de folha em folha um verso misterioso,
Por você cujo pensamento enche meu devaneio,
Encontrei, numa sombra onde ri uma erva florida,
Entre Buc e Meudon, num profundo esquecimento,
- E quando digo Meudon, suponho Tivoli! -
Encontrei , meu poeta, um vale verde
Nas encostas charmosas displicentemente místicas,
Retrato favorável aos amantes escondidos,
Feito de ondas dormentes e de ramos inclinados,
Onde o belo meio-dia banha em vão com seus raios sem número
A gruta e a floresta, frescos asilos de sombra!

Por você eu a procurei, uma manhã, orgulhoso, feliz,
Com o amor no coração e a madrugada nos olhos;
Por você eu a procurei, acompanhado daquela
Que sabe todos os segredos que minha alma esconde,
E quem, só comigo sobre os bosques hirsutos,
Seria minha Licoris se eu fosse seu Gallus.

Porque ela tem no coração esta flor larga e pura,
O amor misterioso de antiga natureza!
Ela ama como nós, mestre, estas doces vozes
Este barulho de ninhos felizes que saem dos sombrios bosques,
E, a noite, toda ao fundo do vale estreito,
As encostas derrubadas no lago que reverbera,
E, quando o poente triste perdeu seu rubor,
Os pântanos irritados dos passos do viajante,
E o humilde sapê, e o antro obstruído de erva verde,
E que lembra uma boca com o terror aberto,
As águas, os prados, os montes, os refúgios charmosos,
E os grandes horizontes cheios de brilhos!

Mestre! pois eis a estação das pervincas
Se você quiser, cada noite, afastando os galhos,
Sem despertar ecos em nossos passos ousados,
Nós iremos todos os três, quer dizer, todos dois,
Nesse valezinho selvagem e de solidão,
Sonhadores, nós surpreenderemos a secreta atitude.
Na parda clareira onde a árvore ao tronco nodoso
Toma a noite um perfil humano e monstruoso,
Nós deixaremos fumar, à costa de um Falso Ébano,
Algum fogo que se extingue sem pastor que o atiça
E, a orelha esticada à suas vagas canções,
Sobre a sombra, ao luar, a atravessar as moitas,
Ávidos, nós poderemos ver, furtivamente
Os sátiros dançantes que imitam Alfesibéia.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

L'amateur de poèmes

de Paul Valéry
tradução Pedro Lago

Se observo, de repente, meu verdadeiro pensamento, não me consolo de dever suportar esta palavra interior, impessoal e sem origem; estas figuras efêmeras; e essa infinidade de empreendimentos interrompidos por sua própria facilidade, que se transformam uma a outra, sem que nada mude com elas. Incoerente sem parecer, nulo instantaneamente, pois é espontâneo, o pensamento, por sua natureza, sem estilo.

MAS eu não tenho todos os dias o poder de propor à minha atenção alguns seres necessários, nem fingir obstáculos espirituais que formam uma aparência de princípio, de plenitude e de fim, no lugar de minha insuportável fuga.

Um poema é uma duração, na qual, leitor, eu respiro uma lei que foi preparada; eu dou meu sopro e as máquinas de minha voz, ou somente seu poder, que se concilia com o silêncio.

Eu me abandono à adorável marcha: ler, viver onde levam as palavras. Sua aparência é escrita. Suas sonoridades ajustadas. Seu movimento se compõe, a partir de uma meditação anterior, e elas se precipitarão em grupos magníficos ou puros, na ressonância. Mesmo meus espantos são seguros: Eles são escondidos ao avanço, e fazem parte do meio.

Movido pela escritura fatal, e se a métrica sempre futura acorrentar, sem retorno, minha memória, eu sinto cada palavra em toda sua força, para tê-la indefinidamente atendida. Esta medida que me transporta e que eu coloro, me conserva do verdadeiro e do falso. Nem a dúvida me divide, nem a razão me trabalha. Nenhum acaso, mas uma chance extraordinária se fortifica. Eu acho sem esforço a linguagem dessa felicidade; e penso, por artifício, um pensamento todo certo, maravilhosamente previdente, - às lacunas calculadas, sem trevas involuntárias, cujo movimento me comanda e a quantidade me enche: um pensamento singularmente terminado.

domingo, 22 de agosto de 2010

Crítica do livro Corpo Aberto por Fernando Py

Tribuna de Petrópolis, sexta-feira, 6 de agosto de 2010.

Corpo Aberto, volume de estreia do poeta Pedro Lago (Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2010), é um livro curioso, pelo menos por dois motivos: primeiro, a sua linguagem referencial, que redunda numa poesia quase inteiramente desprovida de metáforas; segundo, a disposição dos versos, que, de certo modo, poderiam ser escritos em forma de prosa corrida. Quando ao primeiro caso, seria possível dizer que Pedro Lago não é poeta, visto que para muitos a poesia se faz basicamente de metáforas. Mas, se isso fosse verdade absoluta, o que se poderia dizer de Dante Alighieri? Que a Divina Comédia não é poesia, por não se utilizar quase de metáforas? É claro que não se poderia cometer tamanho equívoco em relação a um dos maiores monumentos da poesia ocidental. Quando ao segundo, a linguagem referencial nunca foi motivo para eliminar um texto da área da poesia. Temos o belo exemplo de Cora Coralina, para não irmos muito longe.

Os poemas de Corpo Aberto são essencialmente descritivos, ou seja, relatam uma determinada circunstância em versos que, na aparência, poderiam ser expressos em prosa. Com certeza, dirá o leitor, s podem ser escritos em prosa sem perder nada da informação que contêm, escrevê-los em versos seria um engodo. Mas a coisa não é assim. Pedro Lago toma o cuidado de manter uma dicção harmoniosa, pois, mesmo falando de coisas comuns, corriqueiras, está denotando perfeita noção do ritmo do verso, da cadência de uma frase - o que não observamos num texto meramente escrito em prosa corrente -, e elabora uma poesia referencial, de grande efeito rítmico e sonoro. Sirva de exemplo o poema 'O sórdido' (p.17): "Nesses dias / em que o corpo cansa, / quando a tarde já pede / à noite para surgir / e o som da cidade / silencia o pensamento / mais leve, sinto-me / um ser de bronze, / a ostentar formas frias / nuas de identidade, / e somente a existência, / amiga íntima, / a banhar-me neste / imenso mundo / que hoje se faz / abjeto." (p.17). Uma frase única, bem banal, não é? E, como este, quase todos os poemas do livro adotam uma postura referencial. Porém, como podemos ver, apresentando um todo sonoro sustentado pelas vogais abertas e fechadas e pelo ritmo diversificado das sílabas - nunca igual em dois versos seguidos. A poesia de Pedro Lago surge para a nossa literatura apostando numa arte poética rara e difícil, mas bem estimulante. Parabéns.

Fernando Py.

sábado, 17 de julho de 2010

Apenas

Porque todos querem amar,
seja agora, amanhã ou
num dia simples como este
em que chove tanto,

e submergimos pouco abaixo
da superfície e, lá em cima,
fica claro o que se quer.

Vontade de sempre estar ali,
mesmo na necessidade
de tornar a respirar,
e tudo voltar a ser azul,
infinito,
assim,
sem sorrir muito,
pois não se idealizam cores,
tampouco texturas,
somente formas fracas
em grafite
clarinho,
sem marcar muito,

e esperar sem esperar,
que, em qualquer dia
mais claro, componha-se
o que se pensa agora,
assim,
sem saber o quê.

Pedro Lago.


in Corpo Aberto, Ibis Libris, 2010